Discurso Colação de Grau Turma Medicina sem Fronteiras-FMJ, 2008.1-Paraninfo Prof. Robério Motta.
Quero, neste momento, expressar a minha gratidão pelo honroso convite, a minha alegria e satisfação de estar aqui, com todos vocês, mergulhados na singularidade deste sublime momento de suas vidas. Não quero recolher esta homenagem à contemplação individual, mas compartilhar com todos os colegas que fazem parte do corpo docente desta faculdade. Tenho a absoluta certeza de que sou apenas um representante de todos os colegas, neste memorável acontecimento.Quero então, pedir licença a todos para registrar alguns nomes que tenho a certeza que desempenharam e desempenham um importante papel nesta escola: Profa. Anamaria Cavalcanti e Silva que tanto ajudou na estruturação inicial da FMJ, em especial no arcabouço das disciplinas de saúde da família, que é o escopo desta instituição, e nos primeiros cursos de pós-graduação através da especialização em Saúde da Família.Prof. Ângelo Roncalli Ramalho Sampaio importante nome responsável pelo arcabouço inicial de toda a clínica médica e hoje se encontra a frente do núcleo de pós-graduação, pesquisa e extensão.Profa. Ana Cristina Gomes Duarte que com empenho e determinação nos ajudou na estruturação do internato em clínica médica e foi a mentora e grande lutadora na instalação da residência em clínica médica desta escola, uma das primeiras na área no interior do estado e a primeira na área em nossa região.E a Ludmila Mendonça Almeida Grangeiro que sempre organiza com esmero e tanto carinho as solenidades de formatura de nossa escola. Eis o tão sonhado dia da formatura. Um momento temporalmente curto, pois, nestas poucas horas de solenidade, são resumidos os seis longos anos do curso médico e, por trás destes, outros tantos até chegarem aqui. Um momento curto e único de mistura de sonhos, seus e de seus pais, mas com certeza longevo pela perpetuação deste em nossos corações. O momento da formatura é singular, tem música, cor e vida própria. Nomes diferentes, naturalidades diversas, mas uma só paixão, unidos pela arte da medicina, por um ideal nobre e por um sentimento de amizade nascido do encontro entre todos vocês e nós que fazemos esta escola.A vocação, o amor ao próximo e a arte médica unem todos nós e todos aqueles predestinados a romper desafios, pelo envolvente sacerdócio da medicina. Só os verdadeiramente vocacionados aprendem a verdadeira medicina, pois esta não se aprende só em livros, mas fazendo-a e re-fazendo-a, com amor e dedicação, com paciência e determinação, com humildade e perseverança. O que os livros nos ensinam, com certeza, é menos que o contato verdadeiro, o contato com o paciente, pois no cotidiano apaixonante da medicina, temos contato com a paixão, contato com a vida e pela vida.Neste lindo momento de suas vidas, convido-os para uma profunda reflexão, visto que existiam fronteiras geográficas que os dividiam, antes de entrarem nesta escola de médicos. Durante anos, estas fronteiras foram vencidas pela união de todos vocês em uma só turma: “A turma Medicina Sem Fronteiras”. Mas, o que fizemos e o que poderemos fazer para reduzir o limite entre duas partes distintas? A fronteira entre o médico e o paciente? O limite entre dois mundos que parecem estar cada vez mais distantes, em contraste à tênue linha que separa a saúde da doença, a beneficência da maleficência? E as fronteiras entre o corpo e a alma? Entre a acessibilidade e o inabordável? Entre o humanismo e a medicina mecanicista? Entre o velho e o novo saber? Entre estradas caminhadas e caminhos a percorrer? Entre sonhos e conquistas? Entre o tempo e a distância entre todos nós?Ao escolherem o nome da turma “medicina sem fronteiras”, tenho a absoluta certeza de que trabalharão, dia a dia, ano após ano, com a coragem de enfrentar a indiferença de alguns, para que se diminua a diferença entre muitos. Lutarão pelo resgate da dignidade do ser humano, por uma medicina sem fronteiras, por um “todo” e para todos os matizes.Meus caros afilhados, a arte médica é difícil, mas apaixonante, envolvente e de limites únicos, personalizados a cada encontro do par médico-paciente. Este encontro, tão sacrificado ultimamente pela utilização excessiva de procedimentos tecnológicos, vem cada vez mais afastando o médico da cabeceira do doente. O que poderemos fazer para o resgate do encontro clínico? Ponte entre dois mundos, na incansável luta por uma medicina sem fronteiras. Como substituir fronteiras, divisões por horizontes?O discernir de fronteiras entre vida e morte é, em essência, “o cumprimento de dada etapa no contexto evolutivo de cada ser”. Morte e vida completam-se no árduo cotidiano do médico. “A vida humana é um dom de Deus”. Assim sendo, devemos respeitá-la e lutar por ela. Somos médicos, médicos da vida e para a vida, lembrem-se desta imensa responsabilidade.Ser médico, sonho de muitos, conquista de poucos. Vocês receberam este chamamento. São vitoriosos! Parece que foi ontem a chegada de vocês a esta escola. Como pássaros feridos de saudades, longe de seus lares e dos seus, foram chegando e conquistando todos. Hoje, neste memorável dia, partem como águias determinadas a vencer novos desafios. Levam consigo conquistas e novos sonhos, deixam conosco o doce vazio da saudade. Novos horizontes os esperam, pois, neste mágico trem da vida, a locomotiva são os nossos próprios sonhos. A cada semestre, para nós que fazemos parte desta escola, vivemos este momento de alegria pela conquista e vitória de uma nova turma de médicos que se forma, mas também um momento de reflexão para todos nós sobre o que fizemos e deixamos de fazer, porquanto aprendemos sempre com cada turma que se vai, deixando marcas de saudades em nossos corações. Neste momento de último encontro, encontro de despedidas, pois talvez nunca consigamos reunir todos nós- docentes, familiares e alunos- em um só lugar, em um só momento, em uma só estação, nesta estação de despedidas, quero aqui lembrar um trecho de uma linda canção de Milton Nascimento intitulada: “Encontro e Despedidas”:
Todos os dias é um vaivém
a vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
são só dois lados
da mesma viagem
O trem que chega
é o mesmo trem da partida
A hora do encontro
é também despedida
A plataforma dessa estação
é a vida desse meu lugar
é a vida desse meu lugar
é a vida...
Nossos caminhos se encontraram, nesta honrosa casa (FMJ), por uma paixão em comum. A paixão pela Medicina. Nesta caminhada, deixaram pisadas no solo dos nossos corações. E as marcas que ficam registradas neste solo refletirão sempre em nossa memória, e, assim, sempre trarão para junto de nós todos os amigos que se foram para um perto-longe, uma vez que a verdadeira amizade tem este poder, o poder de deixar saudade, que é o que fica de quem não fica. Dizia o poeta: “Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho; mas não vai sozinho nem nos deixa só...Leva um pouco de nós mesmos e deixa um pouco de si mesmo.”Hoje, vocês seguem como filhos que partem na busca de um novo horizonte; ficamos nós no desejo de um breve retorno, no desejo que suas conquistas se concretizem, no desejo de ver novos sorrisos de vitórias estampados em seus rostos. Meus caros alunos, meus nobres médicos, meus amigos, meus afilhados, reparem, no semblante dos seus pais, a imensa alegria e aproveitem o que este momento lindo de suas vidas tem a oferecer. Olhem para todos os lados e contemplem a sua vitória e a de seus colegas médicos, a vitória de chegarem juntos a esta maravilhosa conquista que poucos alcançam. Nossos pais dão-nos pernas para nossas andanças pelos caminhos do coração. São parceiros na construção de nossos sonhos e são fonte constante de incentivos e carinhos.Nesta linda tela de suas vidas, emolduradas pelo tempo, pincéis de determinação e tintas de momentos se lançam nesta tela. Saibam que a assinatura de autoria desta, ao lado da de vocês, é a assinatura de seus pais. Eles são autores maiores, eles fazem parte da concepção desta bela tela, que retrata este grande momento. Eles, seus pais, se integram perfeitamente em suas conquistas, em suas vitórias, em suas vidas. Lembrem-se: “Nenhum vento é favorável para o marinheiro que não sabe para onde ir”, disse o filósofo Sêneca.Assim, acreditem nos seus sonhos e busquem-nos com firmeza, colocando sempre no norte de suas bússolas a ética, a decência e a amizade sincera.E nesta apaixonante caminhada, longa e cheia de desafios, carreguem consigo a cordialidade, a paciência do escutar, a percepção do tocar e a sensibilidade do olhar. Só assim terão a confortante certeza do dever cumprido. Lembrem-se de que a escola apenas orienta caminhos, e entre o bom senso e a ética não devem existir fronteiras. Na luta contra os desafios que surgirão, atentem que ser forte é diferente de sentir-se forte. Assim, nunca percam a capacidade de se indignar com a inverdade, com a injustiça, com o conformismo, mas levem sempre consigo a sensibilidade do humanismo.Lutem pela essência da vida, pela compaixão, pela medicina e pela arte de ser médico. Levem junto de vocês a maior arma que um médico pode ter: a juventude de seus corações e a vontade de fazer diferente e sempre melhor, em busca do verdadeiro ideal da arte de curar. Não se preocupem com o ter, com a recompensa, pois, lembrando o nosso querido Padre Cícero Romão Batista, “Deus nunca deixou trabalho sem recompensa, nem lágrimas sem consolação”.Victor Hugo dizia sempre que o homem só deve inclinar-se diante do gênio e ajoelhar-se diante da bondade. Destarte, meus jovens médicos, devemos todos nós ir à busca do saber, mas não esquecer a bondade, co-irmã do velho e importante humanismo, tão velho quanto a própria medicina. Lembrem-se de que somos todos alunos. Alunos da ciência, da arte e da vida.Quero aqui registrar um ensinamento de Joaquim Nabuco: “Evitai de vos observar ao microscópio. Bons olhos, sem vidros, voltados para o que vos cerca é quanto basta”. Assim sendo, encontrem o seu mundo de médico, ao entender o mundo em que está inserido seu paciente, procurando sempre a harmonia nas diferenças e sabedoria nas dificuldades. E o Cais FMJ, sempre repleto de saudades, há de se acostumar com a despedida. A cada semestre, uma nova turma aporta, enquanto outra parte para novas conquistas.Hoje é o dia da última lição. Uma aula de despedida. Lutem e acreditem nos seus sonhos, estudem sempre e trabalhem com amor.O importante na vida é a própria vida, e o médico tem o poder singular de recebê-la em suas mãos, tomar decisões sobre ela, sobre a vida de um paciente, que a ele confia a sua própria vida. Atentem sempre para o real papel do médico, seus deveres, suas limitações. Regras simples como: “Não fazer aquilo para o que não está habilitado a fazer”, “Não deixar de fazer aquilo que era para ser feito” e “Não fazer o que não era para ser feito” devam ser uma constante em suas vidas. Lembrem-se sempre de seus pais, com gratidão e amor, e de todos aqueles que os acompanham, desde o primeiro capítulo de suas vidas. Recordem-se com carinho deste encontro único, deste dia especial de suas vidas, atentando que o respeito, a sinceridade e a empatia são os companheiros, na fascinante arte da medicina. Meus afilhados, meus alunos, caros amigos, hoje colegas médicos,Sejam felizes e que suas vidas sejam repletas de paz e vitórias! Afinal, é pelo sonho que vamos...
Que a emoção única e a música deste belo momento acompanhem sempre todos vocês!
Obrigado de coração!!! Robério Motta.
(Discurso do Paraninfo Prof. Robério Motta, proferido durante a cerimônia de Colação de Grau da Turma de Medicina 2008.1 – Medicina sem Fronteiras – Faculdade de Medicina de Juazeiro – FMJ no Memorial Padre Cícero em 04/07/2008).
