Discurso Colação de Grau Turma Médicos de Homens e de Almas, FMJ-2007.1 - Paraninfo Prof. Robério Motta.


Para todos nós este é um grande momento. Uma noite memorável e um grande desafio para minha pessoa. Estou extremamente honrado e surpreso com o convite de ser paraninfo desta turma especial. Especial, por aqui se encontrarem ex-alunos que se tornaram verdadeiros amigos e, hoje, se tornam colegas médicos. Especial, por se tratar de médicos que procurarão sempre, cada vez mais, desempenhar a medicina com humanismo, tendência esta revelada, ao escolherem o nome da turma: “Médicos de Homens e de Almas”. Especial para mim, por nela, também se encontrar a minha querida esposa. Surpreso eu, por pensar que não merecia tamanha honraria, pois tenham a certeza de que aprendi mais com vocês do que vocês com a minha pessoa. Aprendi, através do chamamento que esta honraria traz, que deveria ter sido mais compreensivo e mais paciente, diante do anseio de saber de vocês.Quero expressar a satisfação de estar aqui, neste momento sublime de suas vidas, quando da conclusão do tão sonhado curso de medicina. Emocionado, por ver estampada em seus rostos a felicidade da conquista, a expressão da vitória! E esta é uma platéia de vitoriosos, pois junto de vocês estão seus pais e demais familiares que também são vitoriosos. Tenham certeza do orgulho que eles têm de vocês, por serem pai e mãe de médico. Lembro-me, com carinho e emoção, do momento semelhante por que passei, quando de minha formatura. A ansiedade e os novos desafios com o futuro são mínimos, diante da vitória alcançada.Sei que se passa um filme pela mente de vocês: alguns relembram o primeiro encontro na faculdade, a chegada à terra do Pe.Cícero, os primeiros desafios, os novos amigos, o novo lar, uma nova vida, novos sonhos e conquistas. Sei o quanto é árduo o curso de medicina e aqui relembro um depoimento, em forma de desabafo, de um quintanista que assim relatava: “... para que o curso de Medicina não fique como uma “terapia intensiva”, precisaria ser distribuído em mais tempo. Mas o curso de medicina já dura seis anos. Maior ninguém agüenta!”. Enfim, os seis longos anos se passaram, e vocês, hoje, aqui estão para compartilhar com os seus esta merecida vitória.
Todos devem ter a sorte de encontrar uma pessoa, ou ainda venham a ter, que sirva de referência e de estímulo para suas realizações – alguém que, com seu exemplo e orientação, ajude-os a pegar o rumo da vida, com as mãos firmes e o coração confiante. Nossos pais são os primeiros mestres. E são mestres para sempre. Mas, se me permitem, gostaria de repassar, neste grande momento, algumas frases de um grande mestre. O professor Otho Leal Nogueira, há algum tempo, me enviou uma carta com conselhos aos jovens médicos que então se formavam. Pincei algumas frases que acredito serem oportunas para o momento. Uma delas ressalta que devemos sempre priorizar o ser; o ter passa, é eventual; o ser é perpétuo. Outra diz que nos devemos conhecer a nós mesmos: nossas forças e nossas fraquezas; que devemos cultivar a curiosidade acerca das doenças, mas devemos tratar tão bem o enfermo como a enfermidade. Assim sendo, aprendemos, todos os dias, com o colega, com o cotidiano, com vocês, meus ex-alunos, agora colegas médicos! Mas, sobretudo, aprendemos com o nosso querido paciente.A tecnologia avança e afasta o médico do paciente, indo contra a prática do humanismo. A anamnese e o exame físico, hoje, algumas vezes negligenciados, penalizam o binômio médico-paciente. A experiência clínica é pautada pelo saber e pelo tempo. Este nos ensina a arte de examinar e a humildade de saber ouvir. E este dom do conhecimento é enaltecido pelo respeito ao próximo. O Prof. Eugênio Vilaça Mendes, quando esteve aqui em nossa escola, iniciou e finalizou a sua brilhante exposição, com slide de um grande e histórico hospital europeu sendo demolido recentemente. O conceito saúde-doença parece ser despertado para o re-pensar, para a necessidade de investir na promoção de saúde e prevenção de doenças. Talvez, por isso, este tema seja cada vez mais envolvente e atual, pois teremos que trabalhar mais e mais o ser humano, o seu ambiente, as suas inter-relações, o seu completo bem-estar bio-psico-social, e nada mais coerente do que saber que aqueles médicos dotados de humanismo ganharão a jornada com a medicina às costas e humanismo no coração. Vencerão os destemidos em fazer coisas brilhantes. Aqueles que tornarem suas vidas extraordinárias. E, ao buscarem a luz da sabedoria e da crescente habilidade, aprenderão a pensar sozinhos. Vêm-me à mente citações aos que assistiram à Sociedade dos Poetas Mortos, quando nos transmite que a raça humana estar repleta de paixões. A vida existe, e a medicina é um objetivo nobre e necessário para nós médicos nos mantermos vivos. Segundo Dr. Moacyr Scliar, em seu livro O Olhar Médico (2005), um bom médico é aquele que refaz, mesmo sem saber, a trajetória da medicina, através dos tempos. Assim como o pai da Medicina (Hipócrates 460-377 a.C.), sabe que a vida é curta, e a arte é longa; que a ocasião é fugidia, a experiência enganadora, e o julgamento, difícil.  O grande desafio do médico não é a doença, e sim entender mais que a doença, entender o doente. Quero aqui lembrar, o amor contagioso de Patch Adams: “Quando se trata a doença, às vezes se ganha e às vezes se perde, mas quando se trata o paciente, nunca se perde”.A arte de curar é mais ampla; curar tem um significado maior, conforme nos expressa a própria palavra, que é de origem latina; “curar” significa “cuidar”. O “cuidar” do indivíduo doente que foi transportado para uma outra realidade, fora do seu cotidiano, fora do seu habitat, quando se encontra internado, distante do seu mundo e dos seus, quando em coma. O arquétipo de um bom médico é aquele que percebe e deixa-se perceber, pois é capaz de tocar o sentimento. Aprendemos a ser médicos com nosso maior mestre – o paciente. Ele é paciente como um todo e sob todas as formas, é paciente com o tempo, que é a quarta dimensão do diagnóstico, aqui lembrando, mais uma vez, o grande mestre Otho Leal; é paciente com a tomada de decisão de seu médico, pois para ele seu médico é sempre o melhor, dada a confiabilidade nele depositada, e é paciente, por sabe “ouvir” o seu médico. Por isso, digo e repito que aprendemos com o nosso paciente, desde o primeiro contato, ainda na escola médica, até os dias de hoje e temos muito que aprender, não só pela evolução da medicina, a passos largos, mas, sobretudo, por saber que cada paciente é um mundo de temperamentos individuais.   Rudolf Virchow (1821-1902) dizia que a doença deve ser procurada, não apenas no que é visível, mas também ali onde os olhos não enxergam. Se atentarmos para uma dimensão maior, perceberemos que não só precisamos, muitas vezes, recorrer ao microscópio, à endoscopia e tantos outros métodos, mas sim a um “olhar” mais amplo, mais humano, sobre um ser humano como um todo e o impacto que aquela enfermidade trouxe para a vida daquele paciente que está ali, diante dos nossos olhos. O “olhar” médico tem que ser diferente dos demais olhares. Tem dimensão e luz própria, pois permite a interação com o ser humano, um ser que não deixa nunca de ser “humano”, por estar doente. Pelo contrário, é neste momento de fragilidade que os sentimentos se afloram, pois o ser humano é um “arcabouço” de fragilidades, e a doença tem efeito singular sobre o doente. O “olhar” médico tem que ter generosidade sem tamanho,  incondicionalidade, veia amorosa, apego com respeito,  habilidade da percepção mais ampla do indivíduo, em sua forma integral com seus medos, angústias e sentimentos, diante daquela situação de enfermo. Sobretudo o “olhar” do médico tem que ter vida, tem que ter esperança, pois é isto que o doente procura, quando vai ao encontro do médico, solução para sua doença e esperança de cura. Todo paciente, e acredito que alguém de nós já foi paciente ou irá ser, algum dia, sabe o que se espera de um bom médico. Não se espera que ele seja só seguro, tecnicamente competente e com embasamento científico; o que se espera do médico é que ele nos olhe como um ser humano. É esse contato verdadeiro que procuramos e para tanto nós devemos rever a nossa relação com o paciente, com a vida, com o mundo. Somos tentados a ver o paciente por fora, o que nos faz distanciar cada vez mais dele, e conseqüentemente nos afastamos do diagnóstico e do sucesso da terapia. A medicina não será completa, se não tivermos a visão do todo, da integralidade. Daí a necessidade de enxergar o ser humano por dentro. Esta visão integral torna-nos diferentes, pois passamos a entender a dimensão da dor, a dimensão da perda. Talvez vocês se perguntem: como um “quase nada” vale muito? Qual o poder de um aperto de mão? De um olhar? De uma batida nos ombros sorrindo ou chorando? De uma voz que nos chama de amigo? Devemos estar atentos, pois existe uma diferença muito grande entre o ver e o enxergar, entre o auscultar e o saber ouvir, entre o palpar e o tocar, e isso faz perceber a consciência de que se vive. Nesse encontro mágico entre médico e paciente, o saber olhar e o saber ouvir fazem a diferença, pois como dizia o poeta: “Há palavras que choram e lágrimas que falam”.Queria aqui retratar um breve texto escrito pelo russo Liev Tolstói (1828-1910), em uma das novelas mais perfeitas da história da literatura, "A Morte de Ivan Ilitch" em que narra a agonia de um burocrata desenganado, em busca do diagnóstico para sua doença. “O doutor dizia: isto e mais aquilo indicam que o senhor tem, no seu interior, isto e mais aquilo; mas se isto não se confirmar pela pesquisa disto e de mais aquilo, teremos que supor no senhor isto e mais aquilo. E, supondo-se que tenha isto e mais aquilo, então...etc.”. Enquanto o paciente agoniza de dor abdominal e de dúvidas com relação a sua doença, desejando saber se seu quadro é grave, ao médico esse detalhe é desimportante — está mais interessado em saber se o problema do doente se localiza no apêndice ou nos rins, revelando o descompasso que existe entre as expectativas do doente e os objetivos do médico.
Durante o encontro clínico, falaremos, algumas vezes, palavras tristes a depender do diagnóstico, porém nunca devemos ostentar um olhar “vazio”, e sim com “vida”,uma vez que o olhar é a alma, e a alma é chama que não se apaga, pois, para entendermos a morte, é preciso perguntar o que é a vida. O “olhar” médico tem a capacidade de afetar e ser afetado, tem a capacidade de transformar, visto que ele é o canal de comunicação com o mundo, e é através dele que temos acesso à essência da dor do ser humano em cada momento. E isto assume uma conotação bem maior, pois o tratamento é resultado de uma comunicação bem estabelecida. E o bom resultado geralmente só se consegue com o estabelecimento de um vínculo profundo, de uma boa relação médico-paciente, um vínculo capaz de reconhecer o que está doente, estimulando o que se encontra sadio; aí está a magia do “todo” onde deixamos de ser apenas prisioneiros da lógica e da razão. Quero aqui, reportar-me a Fernando Pessoa, em seu poema Não sei quantas almas tenho:“De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem  alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê;
Quem sente não é quem é.
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu”.
Caros colegas médicos, hoje e sempre sentirão a importância de ser médico. Ele tem um papel fundamental na comunidade da qual cuida.  Ele é arte maior, é a ciência e é a esperança daqueles que o procuram. O médico tem impacto de transformar, tem sua função social. O seu cotidiano é árduo, mas esta rotina não pode nunca influenciar o seu calejar, não pode nunca deixar-nos frios e distantes, pois assim perderemos a essência maior da arte de cuidar – a compaixão, que tem a capacidade de diluir a dor.

Queria aqui relembrar um aforismo bastante conhecido, na prática médica, e que, embora seja atribuído com freqüência a autores de épocas mais recentes, tais como Trudeau, Osler e Holmes, nas referências mais antigas, o aforismo data do século XV e nada mais é do que a síntese da própria medicina e do compromisso do médico para com o paciente que padece: “O médico, às vezes, cura; muitas vezes, alivia e sempre é um consolo”. A tradução que mais se aproxima do original francês é a seguinte: “Curar, algumas vezes, aliviar, muitas vezes; consolar, sempre”. 

Quero aqui ressaltar o compromisso que vocês assumem, ao se tornarem médicos. E o poder que este compromisso tem em transcender todos os desafios. A vocação e o verdadeiro sacerdócio consistem em exercer a medicina com humanismo, em um mundo tão competitivo em que vivemos atualmente. Acreditem nos seus sonhos. Busquem a essência da vida no ato médico, no poder da compaixão, na força da ajuda mútua, na dedicação aos princípios.Saibam que fica um pouco de vocês nesta escola, e tenho a certeza de que levam consigo um pouco de cada um de nós. E, ao encontrarem um novo solo, não se esqueçam de transmitir a paixão contagiante da medicina, de estar sempre abertos a novos saberes, pois médicos nunca se formam. Certa vez, ainda como acadêmico de medicina, ao visitar um colega de turma, fui abordado pelo pai dele, um sociólogo, que me indagou: Como vai a medicina? Respondi: Vai Bem! E ele, no mesmo instante, completou: “Cuide bem da medicina, para que a mesma possa cuidar bem de você!” Guardo comigo estas palavras, e o que fica na minha lembrança é tão forte e atual, pois, hoje cada vez mais entendo o significado do que ele queria dizer. Assim sendo, eu espero, desta forma, que estas palavras também sirvam para vocês, meus caros afilhados e colegas médicos. E onde quer que vocês estejam, lá estaremos todos desta escola, sem exceção, torcendo pelo sucesso de vocês. E, se me pedirem que escolha alguma palavra que relembre esta emocionante cerimônia, escolherei saudade, esta palavra mágica que dá asas à dor do pensamento, cuja residência é a memória que, por sua vez, é uma casinha bem perto do coração. Nobres Médicos de Homens e de Almas,“Carpite diem!!!” “Aproveitem o dia !!!”Sejam felizes!!!Obrigado de coração!!!Robério Motta.

(Discurso do Paraninfo Prof. Robério Motta proferido durante cerimônia de Colação de Grau da Turma de Medicina 2007.1 – Faculdade de Medicina de Juazeiro – FMJ no Memorial Padre Cícero em 22/06/2007).

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Domingo, 05 de Setembro de 2010

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